domingo, 17 de julho de 2011

CONVERSAS COM VARGAS LLOSA, Ricardo Setti



Imperdível para vários tipos de interesse: literatura e criação, linguística, política, cultura e história estão presentes neste livro, que retrata uma série de entrevistas concedidas pelo escritor peruano -e atual Nobel de Literatura- em sua casa em Lima ao jornalista d´O Globo (hoje Veja), nos anos setenta.
Um dos momentos mais interessantes dos diálogos é a aparente aversão de Llosa à política, em contrapartida à sua candidatura ás eleições presidenciais, anos depois, derrotado por Fujimori, e sua atuação no sufrágio mais recente. Uma das frases do entrevistado, a est respeito: "A literatura importa mais que a política, à qual todo escritor deveria aproximar-se somente para obstruir-lhe os lances, recordar-lhe seu lugar e opor-se a seus malefícios".
Recomendável não somente para os amantes da grande obra de Llosa, mas a todos que, de uma forma ou de outra, percebem a arte literária como mola propulsora e catalisadora de parte do pensamento humano.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O FILHO ETERNO, Cristóvão Tezza



Livro autobiográfico que traz à tona a questão da Síndrome de Down infantil, porém com menos piedade e pieguice do que usualmente estamos acostumados. O narrador -o próprio autor- tece com extrema habilidade e autenticidade o turbilhão de acontecimentos e desvarios que invade a vida de quem recebe a notícia de que vai ser pai de um filho especial. A trama envolve o leitor de forma definitiva, fazendo com que tome parte na história e acompanhe a lenta e profunda transformação por que passa o autor, que vai da incredulidade (e vai ao fundo do poço, quando "descobre" que os portadores da Síndrome têm vida curta) à aceitação e ao amor incondicional, que fazem desta obra uma leitura obrigatória. E que proporcionou ao autor a justa notoriedade e reconhecimento.

domingo, 3 de julho de 2011

GRAMÁTICA EXPOSITIVA DO CHÃO, Manoel de Barros


Mais do que uma Antologia, a Gramática Expositiva do chão representa para a Poesia brasileira o testemunho de um dos mais originais e autênticos estetas da língua. Não somente por retratar as características de uma região pouco "poetizada", como o Pantanal, mas sobretudo por propor a valorização das "coisas desimportantes" e pequenezas afins. Para os não-iniciados, a poesia de Manoel seguramente há de causar estranheza, o que é proporcionalmente semelhante à imensidão do Pantanal retratado: quando os olhos se acostumam, às vezes não dão conta de guardar em si tanta beleza. Um livro para se ter amor.

sábado, 2 de julho de 2011

CARTAS DA PRISÃO, Frei Betto




Registro magistral e autêntico de um período conturbado e turbulento da História recente do Brasil: em novembro de 1969, o líder da Aliança de Libertação Nacional (ALN) e dirigente comunista Carlos Marighella é atraído pela polícia para uma emboscada e morre em meio a um tiroteio, em S. Paulo, quando imaginava estar se dirigindo para uma reunião com frades dominicanos. Consumada a execução, segue-se a prisão de Frei Betto e mais três amigos, acusados de serem “responsáveis pelo esquema de fronteiras da ALN”.
O relato que se segue, em estilo epistolar, se constitui em um documento de leitura obrigatória para um breve entendimento de um dos episódios que marcou parte do regime militar no Brasil em uma de suas fases mais contundentes –os anos 1970.
Betto entremeia o discurso contido em sua correspondência –remetida aos pais, aos amigos, aos colegas, aos irmãos de fé- entre a política e a igreja, ao longo dos quatro anos de cárcere, convivendo com presos comuns e refletindo sobre a importância da participação dos homens de bem para transformação do ambiente social e político. Refere-se às injustiças e à manipulação da massa para o assentamento do sistema capitalista, através da alienação e do uso de práticas repressivas.
As passagens mais monótonas –ainda que não menos belas, sobretudo devido aos ensinamentos de cunho cristão- são as que se referem ao momento político da Igreja, quando os textos são repetitivos e panfletários.
Não há como evitar a referência às cartas do Apóstolo Paulo que, quando esteve preso, utilizava-se de cartas para manter contato com as Igrejas cristãs.
O leitor não encontrará, nas Cartas de Betto, uma única linha ou referência sobre o episódio que culminou com sua prisão e condenação, o que pode levar à presunção talvez errônea de culpa. Diante, porém, das lições de vida, senso de justiça e espiritualidade constantes nas Cartas, ser culpado ou não passa a ser, pelo menos neste momento da História, irrelevante.
Destaque também para a primorosa abertura, a cargo de Alceu Amoroso Lima.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

GOMORRA, Roberto Saviano


Alucinante narrativa sobre os tentáculos espessos e infinitos das organizações criminosas da Italia e da China, que acabam por infiltrar-se nos mais importantes portos do mundo. Tráfico de drogas, assassinatos, contrabando, prostituição e dezenas de outros crimes são dissecados em um prosa direta e avassaladora, sem espaço para lirismo ou meias-palavras. Saviano condena também a aura de mito que se estabeleceu em torno da Máfia, graças ao cinema. Sua perambulação pelo sub-mundo não somente do bel paese mas também por outros países da Europa se constitui em um retrato claro da absoluta impotência dos Estados diante da magnitude e da organização das instituições criminosas. A primeira página do livro, que trata de um conteiner sendo aberto enquanto é içado por uma grua, é chocante. Ainda que o autor seja jornalista, Gomorra não é somente uma reportagem. Nem tampouco somente um romance. É um livro que parece definitivo. Uma obra que trata do que pode haver de pior na condição humana. Sem mistificações.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

DO DESEJO, Hilda Hilst



Coletânea de poemas de uma das fases mais brilhantes e profícuas da autora residente da Casa do Sol. Textos caracterizados pela inconfundível verve de Hilda. Carne e ternura amanhecendo juntas, ao som dos bem-te-vis e de uma manhã prometida de sol. Amor sem distinção, de existência pura e simples, amor por amor, sem culpas desenganos prometimentos futuro. Amores que não se aprisionam ao que está à frente. Amores que independem da escravidão pela busca da felicidade. Amor por ele mesmo: amor. É disso que fala o livro. Sentimento cantado com a crueza da vida. Mais nada. A beleza de um verso como "és meu destino e poente". "A vida é líquida". Meus olhos revigoraram-se depois de "Do Desejo".

sábado, 11 de junho de 2011

DESVARIOS NO BROOKLYN, Paul Auster



Por maior que seja a rejeição que o título do livro possa causar aos que torcem o nariz aos brothers do Norte, vale a pena a leitura desta obra de Auster, um dos "escritores da moda" na literatura ocidental -com direito até a recente aparição na FLIP e figurinha fácil nos cadernos de cultura dos maiores jornais brasileiros. Menos pelo enredo -previsível, recheados de clichês e, às vezes, de uma obviedade irritante- e mais para conhecer o que anda aprontando a literatura norte-americana contemporânea. A obra trata de três gerações de uma desjustada família, cujas trajetórias inesperadamente se entrelaçam em sua rotina de misérias e incidentes, até terminar com um final digno de Zélia Gattai. Ou seja, tudo se encaixa perfeitamente, com famílias reconciliadas, um câncer curado e garantia de sexo regular para o sobrinho intelectual incompreendido. Uma sacada é a teoria do Hotel-Existência, que mereceria um livro à parte. A propalada eleição do ano 2000 surge apenas como referência, sem interferir diretamente na trama. Enfim, a leitura é recomendada, como disse, para efeito de conhecimento do estilo e da capacidade narrativa de Paul -que, a julgar por este livro, deve ter um agente literário pra lá de eficiente.