terça-feira, 20 de setembro de 2011

INCIDENTE EM ANTARES, Érico Veríssimo


Uma das obra-primas do grande escritor gaúcho, que neste romance narra de forma empolgante um fato ocorrido em 13 de dezembro de 1963, na fictícia cidade de Antares, fronteira do Brasil com a Argentina. Dono de um estilo único, com rara habilidade e eloquência, o autor oferece o que há de melhor em sua capacidade criadora, na criação dos personagens -inesquecíveis, nos detalhes das paisagens e no desenrolar da trama. Um lugarejo pequeno (cuja gênese também é apresentada na primeira parte), que com o passar do tempo se "desenvolve" e cresce, até desaguar no lugar-comum onde se alojam algumas das mais conhecidas misérias humanas, representadas pelos donos dos poderes constituídos. Corrupção, assassinatos, adultérios, chantagens e traições, peculatos, torturas, inúmeras revelações que virão à tona na segunda parte do livro, de uma forma surpreendente e inesperada, e que proporcionarão ao leitor o inequívoco sentimento de estar diante de uma das mais originais e completas narrativas da literatura brasileira em todos os tempos -tempos, aliás, em que nossos escritores tinham algo a dizer, e não se perdiam em verborragias gratuitas e incompreensíveis.

domingo, 14 de agosto de 2011

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, José Saramago



Do que é capaz o homem em uma situação extrema? Até onde pode chegar para saciar um desejo ou uma necessidade física? O que nos diferencia de um animal com fome? É direito de um governo dar cabo de alguns para a preservação e benefício da maioria? A solidariedade resiste a, por exemplo, a chance de se subtrair o bem pertencente a outrem? Com seu estilo próprio e inimitável, José atinge sua maturidade como escritor ao proporcionar à literatura um quadro caótico que representa um inventário de tudo o que há de pior na natureza humana, quando posta em condições inimagináveis. Duzentas e setenta pessoas contaminadas pela cegueira conhecida como "mal branco" (e não a cegueira da treva, da escuridão, do breu) são confinadas em uma espécie de sanatório e isoladas do resto do mundo. Uma única pessoa -a mulher do médico- é poupada da epidemia, e passa a auxiliar seu grupo, pagando o preço de, vendo, testemunhar a miséria a que todos ficam expostos. Como em outros livros do autor, há também um cão, o "cão das lágrimas", que passa a acompanhar o grupo e, de certo modo, servir de companhia e "consciência". Junto com o Memorial do Convento e o Levantado do Chão, Ensaio Sobre a Cegueira fecha a "Santíssima Trindade" do fabuloso escritor português. Ensaio foi levado aos cinemas recentemente pelo brasileiro Fernando Meirelles, numa versão elogiável e correta da obra literária. Mas nada que se compare à magnitude do livro.

domingo, 7 de agosto de 2011

DE LEMBRANÇAS & FÓRMULAS MÁGICAS, Edson Bueno de Camargo


Já se disse que a memória é matéria-prima para a Poesia. Com base nesta afirmação, que nos ocorre ao terminar a leitura deste livro, a impressão que fica é que o brilhante poeta paulista nada mais faz do que apresentar um convite: pega o leitor pela mão e, cuidadosamente, o introduz em seu universo de memórias repleto de imagens e figuras permeados pelo sentimento que caracteriza os verdadeiros poetas: o de não-pertencimento ao mundo onde está inserido. A presença recorrente da avó a reconhecer a condição "diferente" do menino ("este menino é meio aluado / estranho e taciturno / vê coisas em cima do guarda-roupa / que só ele percebe e sente"), a figura opressora e tirânica da fábrica a extirpar o "resto da infância e a adolescência" e "se apossar do silêncio de todas as manhãs", a genealogia da família, a casa da Rua Vittorio Veneto e a definitiva vocação para a Poesia desaguam no destino a conduzir o menino, e depois o homem, ao encontro da Poesia, a quem se une para jamais abandonar. Edson -poeta premiado e indubitavelmente dos mais relevantes da atual geração- expõe generosamente suas memórias, e compartilha com o leitor o maior patrimônio de sua obra, que é a declaração da Poesia como parte de um legado do qual não se pode fugir.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

PARA LER E PENSAR, Hermann Hesse


Coletânea de 550 frases e aforismos de autoria do escritor alemão, pinçadas dos seus livros, sobre temas como morte, amor, livros, política, religião, educação, arte etc. Do ponto de visto literário, nada a declarar. Interessante, porém, travar conhecimento com o pensamento e as impressões do artista com relação a temas que, até hoje, inquietam a sociedade. Sua postura diante do comunismo, por exemplo -quando chega mesmo a defender sua adoção e vaticinar o sistema como "destino irrevogável da sociedade"-, dá cores curiosas à leitura, ainda que à época o autor pudesse estar ainda sob os efeitos da Révolução de 1917. Apesar do nome da obra, entretanto, a proporção dos verbos é indevida: há muito o que ler -e quase nada a provocar o pensamento. O objetivo do livro, na verdade, foi alcançado: aprofundar-se no coração do escritor e na sua postura diante do mundo. E provocar a leitura dos seus livros. Para os admiradores e estudiosos de Hesse, não há dúvida de que se trata de leitura obrigatória.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

ADEUS ÀS ARMAS, Ernest Hemingway




Novela autobiográfica do renomado autor americano, que retrata todo o horror e insanidade vividas por Henry, um tenente condutor de ambulâncias que serve na Itália durante a Primeira Grande Guerra. Em meio às agruras que o ambiente hostil lhe reserva, o personagem se apaixona por Catherine, uma enfermeira inglesa com quem sonha casar-se tão logo termine o conflito. Em meio a fugas espetaculares, ambos fogem para a Suíça, onde um destino surpreendente dará cabo de todas as esperanças e projetos. O final da história, não por coincidência e aquém de obviedades, pode requerer uma dose extra de fôlego.
A edição de 1970 da Companhia Editora Nacional traz tradução de Monteiro Lobato, o que colabora para a manutenção do nível literário da obra.
Excelente oportunidade para iniciar-se na obra de Hemingway -ainda que o estilo e o ritmo da narrativa possam causar enfado a leitores mais exigentes.

domingo, 17 de julho de 2011

CONVERSAS COM VARGAS LLOSA, Ricardo Setti



Imperdível para vários tipos de interesse: literatura e criação, linguística, política, cultura e história estão presentes neste livro, que retrata uma série de entrevistas concedidas pelo escritor peruano -e atual Nobel de Literatura- em sua casa em Lima ao jornalista d´O Globo (hoje Veja), nos anos setenta.
Um dos momentos mais interessantes dos diálogos é a aparente aversão de Llosa à política, em contrapartida à sua candidatura ás eleições presidenciais, anos depois, derrotado por Fujimori, e sua atuação no sufrágio mais recente. Uma das frases do entrevistado, a est respeito: "A literatura importa mais que a política, à qual todo escritor deveria aproximar-se somente para obstruir-lhe os lances, recordar-lhe seu lugar e opor-se a seus malefícios".
Recomendável não somente para os amantes da grande obra de Llosa, mas a todos que, de uma forma ou de outra, percebem a arte literária como mola propulsora e catalisadora de parte do pensamento humano.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O FILHO ETERNO, Cristóvão Tezza



Livro autobiográfico que traz à tona a questão da Síndrome de Down infantil, porém com menos piedade e pieguice do que usualmente estamos acostumados. O narrador -o próprio autor- tece com extrema habilidade e autenticidade o turbilhão de acontecimentos e desvarios que invade a vida de quem recebe a notícia de que vai ser pai de um filho especial. A trama envolve o leitor de forma definitiva, fazendo com que tome parte na história e acompanhe a lenta e profunda transformação por que passa o autor, que vai da incredulidade (e vai ao fundo do poço, quando "descobre" que os portadores da Síndrome têm vida curta) à aceitação e ao amor incondicional, que fazem desta obra uma leitura obrigatória. E que proporcionou ao autor a justa notoriedade e reconhecimento.